terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Nos estudos de Bosi, a literatura se torna um campo de investigação sobre a formação e a caracterização de um povo.

REVISTA DE HISTÓRIA Qual a relação entre as condições sociais e a literatura?

ALFREDO BOSI A pergunta pode orientar uma resposta de cunho determinista. Se a pessoa tiver uma formação marxista, sua tendência é apertar muito os laços na direção de uma condição social “x”. Então, neste caso, teríamos uma obra literária “x”, uma correspondência. Isso é o que a gente chama de “vulgata marxista”, ou o marxismo vulgar. Acredito que as leituras que fiz antes da minha formação marxista, muito ligadas a Croce e ao historicismo de Dilthey, me levavam a relativizar essa relação de causa e efeito. Neste sentido, é preciso encontrar um certo equilíbrio. E aí, não há como não lembrar do que Croce nos ensina: em última instância, a literatura é um fenômeno individual.

RH Durante o período colonial, quais são os principais exemplos dessa associação entre a literatura e o meio social?

AB Para responder à sua pergunta, eu destacaria três nomes: José de Anchieta, Gregório de Matos e Antônio Vieira. Mas é preciso entender que até a eclosão do grupo mineiro, digamos, até tarde no século XVIII, não se pode falar em uma sociabilidade literária densa. Os autores que nós temos, aqueles que nós estudamos anteriores a meados do século XVIII, estão deslocados uns em relação aos outros. O Anchieta era capaz de escrever autos teatrais em português e em tupi. Fazia também composições poéticas, líricas, em tupi, e ainda trabalhou numa gramática da língua indígena. Mas toda a obra dele está voltada para a evangelização. Ele era um religioso, profundamente imbuído dos seus valores, e não tinha relação nenhuma com outros literatos da época. É um nome totalmente isolado. Anchieta tem um enorme valor histórico e antropológico, mas não se liga com qualquer outro autor.

RH E Gregório de Matos?

AB Gregório de Matos é um poeta associado ao que chamamos de barroco, que escreveu sátiras admiráveis e conhecia profundamente a literatura portuguesa e espanhola da época. Mas ele não publicou obra nenhuma no Brasil, assim como o Anchieta. E no século XVII não havia sequer uma academia em que ele pudesse exercer o seu pendor poético. É um grande poeta, capaz de satirizar o processo colonial. Alguns de seus sonetos mostram como a Bahia era explorada, como a máquina mercante trazia coisas de pouco valor e levava muitos bens coloniais. Ele tinha essa sensibilidade, mas colecionava preconceitos contra negros, índios, homossexuais, judeus. Ele tem todos os preconceitos. Não é um libertário. Que nenhum baiano me ouça. Ou seja: os três nomes fundamentais para se entender a Colônia só podem ser ligados através de uma conexão com a história, com as lutas coloniais, com o problema indígena ou do negro. Não havia um “barroco brasileiro literário”. Aliás, tenho uma história curiosa sobre isso.

RH Poderia contá-la?

AB Quando o professor Ungaretti veio ao Brasil em 1969 para receber o título de doutor honoris causa, nos pediu para visitar Minas Gerais. Ele já era um homem idoso, de 80 anos. Ia ser complicado andar pelas ruas de Ouro Preto, por exemplo. Pois o meu cunhado Sérgio Frederico, já falecido, o levou e tirou muitas fotos. O Sérgio tinha uma intuição fotográfica e registrou as esculturas de vários ângulos. O Ungaretti ficou maravilhado com aquilo. Ele comparava aquilo com o barroco italiano, que é todo com asas, essencialmente refinado. O nosso Aleijadinho não tem nada disso. É bem simples. Foi quando Ungaretti disse uma frase que eu sempre repito: “Não, não é barroco. É bíblico”.

RH Este cenário das letras nacionais só mudaria com a Independência?

AB É claro que a gente sempre pode verificar o processo anterior, a própria Inconfidência Mineira, que foi um momento de afirmação contra Portugal. Mas nada se compara ao movimento da independência, que reuniu as classes possuidoras. Foram realmente grandes proprietários que assumiram a ideia de que era preciso acabar com o monopólio português. E eles absorveram o romantismo liberal que predominava na Europa do século XIX. Por isso que o nosso romantismo é basicamente liberal, embora muitos ainda perguntem: “Como é possível que um país que tem escravidão seja liberal? Que coisa disparatada!” Não é disparatada. Os Estados Unidos também tiveram escravidão até 1861. Lá, o liberalismo econômico conviveu muito bem com a escravidão. Eu caracterizo esse período da independência como liberal, romântico e escravista. Sem que isso fosse, àquela altura, uma contradição insuperável.

RH Como a literatura foi utilizada na construção da nação brasileira após a Independência?

AB Em um primeiro momento do romantismo, entre 1830 e 1840, procurava-se efetivamente uma figura que simbolizasse a nova nação. Não podia ser o branco português e tampouco o negro, uma figura que lembrava a sujeição da escravidão. Quem sobrava? O índio. Gonçalves Dias e José de Alencar representam isso muito bem. O curioso é que, ao contrário do Gonçalves Dias, muitos daqueles escritores jamais tinham visto um índio. Porque os índios já estavam afastados ou dominados, não eram visíveis a olho nu como no tempo da Colônia. É justamente quando o índio vira passado que ele se transforma ideologicamente, literariamente como uma figura. E uma figura bela. Embora muitas vezes o índio apareça dentro de um viés conservador, como Iracema, de Alencar, que idolatra seus senhores brancos. É um indianismo muito ambivalente de Alencar.

RH Até quando durou esse momento do indianismo?

AB Ele não dura muito, mas é o período da consolidação nacional. Na verdade, podemos dizer que o ciclo romântico liberal vai até Castro Alves e a Abolição. No momento em que o império começa a declinar, a partir dos anos 70, o romantismo e as suas formas menores, como o indianismo, passam a ser substituídos por uma visão que procura ser mais realista e científica. Isto é um fenômeno ocidental. Nós temos o realismo, o cientificismo, o naturalismo, todas essas formas antirromânticas que acreditam que é a ciência, finalmente, que deve constituir o cerne da concepção humana. Essa visão, que o Silvio Romero, em 1878, chamou de “bando de ideias novas”, comportava duas correntes filosóficas fortes que acabaram criando uma nova mentalidade: o positivismo e o evolucionismo.

RH Até que ponto o marxismo pode ser eficaz para o estudo da literatura hoje?

AB O marxismo tem vários desdobramentos. O que me parece, como leigo, é que o marxismo se mantém como crítica da sociedade capitalista, da ideologia burguesa. Eu tratei disso em meu último livro, Ideologia e Contraideologia. O que é funesto na ideologia burguesa liberal é que ela considera como universal e natural uma sociedade que é historicamente localizada a partir da revolução industrial inglesa até hoje. Quer dizer: a sociedade burguesa industrial produziu um desenvolvimento material extraordinário e do qual nós ainda vivemos, mas perpetuou a exploração do trabalho e a divisão de classes. Os avanços capitalistas se fazem à custa de um trabalho escravo. E tudo isso é tolerado de alguma maneira, porque é considerado pelos teóricos liberais como parte da natureza humana. Então, a desigualdade sempre existiu e sempre existirá. O marxismo é uma crítica profunda e radical nesse aspecto ideológico do capitalismo. Neste sentido, ele permanece.

RH É possível propor reformas?

AB Sim. Foi o que eu aprendi com o Celso Furtado. Quando entrei na Academia Brasileira de Letras, ele foi uma das pessoas que me estimularam. Não faltava a nenhuma reunião, diferente de mim, que sou muito pouco assíduo por estar ainda muito preso a compromissos em São Paulo. O Celso Furtado dizia: “É preciso ter mais imaginação política. Nós não podemos repetir sempre os mesmos esquemas”. Ele era um leigo ateu conversando comigo, que ainda tinha alguma veleidade de ser cristão: “É muito bom que a Igreja nos ajude”, dizia ele um pouco antes de morrer.

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